Como destruir uma reputação

publicada em: 26/07/2009

Atire a primeira pedra o político que nunca mudou de posição ou nunca firmou alguma aliança esdrúxula, em algum momento de sua trajetória, para garantir interesses eleitorais, partidários ou mesmo a chamada governabilidade. Na política, engolir alguns sapos faz parte do cotidiano. Porém, como em tudo na vida, até na política deve haver limites. Um mínimo de coerência faz bem.

É exatamente a falta de coerência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que tem chocado os brasileiros. Lula já tinha surpreendido o país com suas inusitadas alianças desde o primeiro governo, como a que fez quando chamou o PP (ex-Arena) para sua base. Mas, no segundo governo, conseguiu se superar.

Há 20 anos, o ex-sindicalista Lula, que chamava os colegas de Câmara Federal de 300 picaretas com anel de doutor, também criticava ferozmente o então presidente da República, José Sarney (PMDB), o mesmo que aparece na imagem acima, num animado colóquio com o petista.

No fim dos anos 1980, o despreparado e idealista Lula tentou chegar à Presidência, mas foi atropelado por Fernando Collor. O então candidato do PRN, é bom lembrar, usou métodos baixos para derrotar Lula: a ex-mulher do petista foi para a TV contar que Lula queria o aborto da filha Lurian. Há pouco mais de uma semana, Lula e Collor apareceram abraçados em uma inauguração em Alagoas, como antigos amigos.

Há quem possa dizer que Lula teve maturidade política para superar divergências em nome da tal governabilidade. Porém, não há justificativa aceitável para Lula ter voltado a respaldar Sarney na semana que passou, quando escutas revelaram que o presidente do Senado sabia de atos secretos que deram emprego a seus parentes. Lula entrará para a história como o presidente do Bolsa-Família, o presidente dos 80% de popularidade. Entretanto, também será lembrado como o presidente que destruiu a sua reputação política em função de uma aliança com o senador mais contestado do Brasil. É uma pena que Lula tenha desrespeitado o próprio passado.

A propósito

A aliança Lula-Sarney é um prato cheio para a oposição se deliciar na campanha ao Planalto no ano que vem, na qual o PT terá de suar muito mais para vencer.

Jornal Pioneiro - Coluna Mirante, de Stefan Ligocki.