O jabaculê nosso de cada dia

publicada em: 15/03/2012

Você tem provas de que a matéria é paga? Ou o conteúdo e a forma de apresentação da reportagem revelam indícios de que pode ter havido algum acordo entre as partes para facilitar as coisas? Mas facilitar o quê, para quem? O foco de um veículo de imprensa não é o público? Então não seria ele quem deveria ter vantagens com o tal acordo? Vantagens do tipo: ficar bem informado, receber informação de qualidade, o mais imparcial possível.....Pois é, não é bem assim, não. E para entender bem como as coisas acontecem, é importante esclarecer o significado do tal jabaculê, termo tão usual em gravadores de música, clubes de futebol, veículos de imprensa e muitos outros ambientes.

A palavra, de origem africana, quer dizer “oferenda para que os maus espíritos não interfiram na harmonia da comunidade”. Hum...já entendi....quer dizer que alguém com poder e dinheiro (ou as duas coisas) se acha no direito de aplicar uma propina para manter a paz? Ah, me esqueci, você já está cansado de ouvir falar em corrupção; essa é só mais uma forma de tratamento para a mesma coisa. Onde tem jabaculê, tem corrupção; onde tem propina, tem as duas coisas.

Mas vamos voltar nosso foco para o Jornalismo e para exemplificar o tema, vou confessar aqui algo que vivi no início da profissão. Eu tinha uns 19 anos e era repórter numa emissora de TV. Algumas vezes, eu tive o desgosto de ouvir do chefe a seguinte frase, assim que ele me entregava a pauta com o assunto que deveria ser tema do trabalho de reportagem: “Capricha nessa matéria, porque é jabá”. Ah, peraí, eu não disse que jabá é o apelido de jabaculê. Pois é, saía eu junto com a equipe toda desanimada, imaginando o quê e como fazer para derrubar a tal pauta (derrubar a pauta é o mesmo que não fazer a matéria).

Eu ficava tão indignada com a situação, que não conseguia trabalhar direito, pensando no absurdo que eu tinha ouvido. Considere que, naquela época, ainda na faculdade, eu tinha aulas de Ética no Jornalismo e imagine o quão desafiador era, pra mim, ter que fazer uma matéria ‘jabaculenta’. Até que um dia tomei coragem e perguntei pro chefe: “E se eu não fizer essa matéria?”. Ele respondeu prontamente: “Eu te mando embora”. Eu abri bem a boca, levantei as sobrancelhas e disse: “Ah, entendiiiiiii”. Ficou claro que manda quem pode e obedece quem tem juízo, né? Bom, gosto de ser justa e por isso devo dizer que isso não era comum, mas é muito corriqueiro em muitas redações, infelizmente.

E o grande desafio de muitos porta-vozes é entender que a imprensa deve ter liberdade de noticiar o que deseja, sem pressão (moral) ou propina (dinheiro mesmo). Pense nas consequências de uma crise de imagem, em que a instituição alvo da confusão tenta encobrir informações, almejando ficar livre de acusações só porque tentou um acordo com um jornalista.

Dependendo do tamanho da repercussão, os acordos teriam que ser repetidos incansavelmente para alcançar todos os veículos interessados na divulgação do caso. Por isso, os antiéticos que me perdoem, mas a postura correta não faz mal a ninguém e é bom lembrar que estamos todos sob as regras da lei da Ação e Reação. Portanto, a tentativa de realizar ou propor um jabaculê hoje pode se transformar em prejuízo amanhã.

Artigo de autoria da jornalista especializada em Media Training, Aurea Regina de Sá.